• Rodolfo de Oliveira

Reflezões Acerca da Autonomia

Este texto é parte do primeiro capítulo de um livro a ser publicado em breve.



Estamos todos invariavelmente afiliados à Lei Moral Natural, o que, em absoluto, nos torna irmãos com idêntico potencial de expressão da verdade.Se isso não é observado empiricamente, é porque temos somente diminuta capacidade de expressão de todo o nosso potencial enquanto almas e diferimo-nos em nossa capacidade de expressão de nossas várias potencialidades. Assim, se em absoluto compartilhamos da mesma origem e potencial, no momento presente apresentamos relativa desigualdade na competência individual de expressão daquilo que podemos ser – e o seremos no futuro! Todos aqueles que compreendem o que acabamos de expressar já estão pelo menos próximos do estado consciencial autônomo e expressam a Lei Moral Natural em suas relações e meio, estabelecendo a harmonia em seu entorno.


A Lei Moral Natural pode ser definida por:

“614. Que se deve entender por Lei Natural?
‘A lei natural é a lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer, e ele só é infeliz quando dela se afasta.’” (Kardec, O Livro dos Espíritos, 1857)

Conhecer seus pormenores ainda não nos é possível, mas podemos especular que começamos a apreendê-la quando emergimos do grande sistema de vida inconsciente que é a natureza para o reino hominal. Isto é, ao nos individualizarmos enquanto almas conscientes de si, passamos a ser regidos pela Lei Moral Natural e, por conseguinte, estamos sujeitos à Lei do Carma ou Lei de Ação e Reação. Todo o nosso aprendizado moral de múltiplas vivências através de muitos milênios pode ser compreendido como o desenvolvimento de nossa habilidade de apreender a Lei Moral Natural e atuar segundo ela. Nossa capacitação moral, em uma perspectiva mais ampla é, portanto, medida pela amplitude de nossa conexão e fidelidade à Lei Moral Natural. É por isso que, como dissemos, em absoluto compartilhamos da mesma origem e potencial, apesar de apresentarmos relativa desigualdade na competência individual de expressão daquilo que podemos ser presentemente. É por isso também que não importa o quanto nos esforcemos, ao longo desta e muitas outras vidas físicas futuras, nunca exerceremos nosso potencial pleno. Temos sempre margem para avançarmos e nos superarmos de novo e de novo. E, se nos permitem uma provocação, o que precisamente é o tempo? Quem dentre nós ousaria apresentar concepções conclusivas acerca disto a que denominamos “tempo”? Passado, presente e futuro se conectam de maneira que estamos longe de compreender. Dispomos apenas de noções da conexão tempo-espaço a partir de sua expressão no mundo físico, com o qual estamos mais familiarizados. No entanto, tal modelo é evidentemente frágil e reduzido. A conexão entre passado, presente e futuro, assim como fenômenos parapsíquicos como a retro/précognição e a psicometria sugerem que um modelo mais completo deveria não só observar as relações entre tempo e espaço, mas pelo menos a tríade tempo-espaço-informação. No contexto pessoal de cada um de nós, tal tríade compreende aquilo a que chamamos akasha – a memória integral de nossa alma, assim como receptáculo de todas as potenciais possibilidades futuras.


É possível que, se pudéssemos acessar nossa akasha, ou seja a memória integral do ser, observaríamos que nossas primeiras vidas humanas marcam uma transição significativa em nossa evolução: a emergência da consciência. Neste momento crucial de nossa história, percebemo-nos como seres independentes da natureza – notamos nossa individualidade em relação a ela, despertamo-nos por assim dizer, do inconsciente natural no qual nos encontrávamos. Deste ponto em diante passamos a ser criaturas sociais. Desenvolvemos faculdades intelectivas superiores (como o raciocínio lógico), passamos a nos preocupar com fatores morais e a nos posicionar perante a ordem (sociedade) e o caos (natureza). Este é também o momento da emergência do ego enquanto faculdade psíquica, já que ele está intrinsecamente ligado à mente consciente. Antes da emergência da mente consciente, não há a diferenciação do indivíduo – isto é, não há um indivíduo, mas sim um ser inconsciente que não é capaz de se conceber independentemente do todo. Neste estado, o ego, núcleo da mente consciente, não pode ser considerado senão como estando em seu estado embrionário. Entendemos o ego como a estrutura de nossa psique que discrimina e organiza nossos conteúdos conscientes, apesar de também regular o que deve permanecer no inconsciente. Ele regula quem éramos, quem somos e quem seremos amanhã, permitindo-nos consistência. Acerca do ego, Jung nos esclarece que:

"O ego, como conteúdo específico da consciência, não é um fator simples ou elementar, mas um complexo que, como tal, não pode ser descrito exaustivamente. A experiência mostra que ele repousa em duas bases aparentemente diferentes: a somática e a psíquica. (...)
A base somática do ego consiste, então, em fatores conscientes e inconscientes. O mesmo se aplica à base psíquica: por um lado, o ego repousa no campo total da consciência e, por outro, na soma total dos conteúdos inconscientes. Estes se encontram em três grupos: primeiro, conteúdos temporariamente subliminares que podem ser reproduzidos voluntariamente (memória); segundo, conteúdos inconscientes que não podem ser reproduzidos voluntariamente; terceiro, conteúdos que não são capazes de se tornar conscientes. O grupo dois pode ser inferido da irrupção espontânea de conteúdos subliminares na consciência. O grupo três é hipotético; é uma inferência lógica dos fatos subjacentes ao grupo dois. Contém conteúdos que ainda não entraram em erupção na consciência, ou que nunca entrarão.
Quando eu disse que o ego "repousa" no campo total da consciência, não quero dizer que ele consiste nisso. Se assim fosse, seria indistinguível do campo da consciência como um todo. O ego é apenas o ponto de referência deste último, fundamentado e limitado pelo fator somático descrito acima.” (Jung, Aion, 1951)

Portanto, o ser que instintivamente se dedicava à manutenção se suas necessidades físicas enquanto ainda se expressava no reino animal, desperta-se para o desenvolvimento moral ao adentrar o reino hominal. A princípio, a mente consciente e, portanto, o ego, se encontra instável e incapaz de se expressar de maneira contínua. Por muitas vidas desenvolvemos este ego que a princípio se encontra fraco e rudimentar, cedendo facilmente aos impulsos naturais de nossa origem animal. Em outras palavras, através de incontáveis reencenações a alma, já ciente de si, mas ainda em constante evolução, passa a ser capaz de estabilizar o ego a ponto de transcender o “empuxo” exercido pela natureza, pelo inconsciente de maneira cada vez mais estável e consistente. Este “empuxo” deve ser entendido como toda e qualquer força psíquica que leve o ser a se expressar enquanto um “ente da natureza” – um animal, por exemplo. Este “empuxo” está presente em nossa expressão sexual, por exemplo. Assim, qualquer pessoa dominada por sua sexualidade pode ser considerada como alguém que cedeu ao às forças inconscientes e caóticas da natureza. O brilho da consciência de alguém que não vê a si e aos outros primariamente como machos e fêmeas é claramente mais humano, mais consciente, mais lúcido. É por isso que natureza, caos, inconsciente e o escuro se relacionam arquetipicamente. Da mesma forma, sociedade, ordem, consciência e luz se associam.

“No começo, a consciência se eleva como uma ilha com qualquer conteúdo que ela então tenha, mas logo afunda novamente no inconsciente. De fato, não há continuidade de consciência. Esse estado tem sido frequentemente relatado nos primitivos, que, se não estiverem ativamente ocupados com alguma coisa, cochilam e se cansam facilmente por um esforço consciente. Somente com a sistematização progressiva da mente consciente há um aumento da continuidade do estado consciente, um fortalecimento da vontade e uma capacidade para a ação voluntária, que no homem moderno são as marcas da consciência do ego. Quanto mais forte sua consciência, mais ele pode fazer com ela, e quanto mais fraca é, mais as coisas simplesmente ‘acontecem’” (Neumann, 1954)

Mas não estamos somente submetidos à força psíquicas da natureza, somos constante e irrefutavelmente chamados a nos posicionarmos perante a ordem (sociedade) e o caos (natureza). Portanto, sofremos também a pressão psíquica do meio social no qual vivemos – a ordem que rege nossa civilização atual. Esta ordem é o resultado de nossas expressões em incontáveis vidas, formando um corpo de normas sociais complexas a que os gregos denominavam “Nomos”. Todo o esforço das ciências sociais e filosóficas pode ser sintetizado como o desafio de se explicitar o Nomos. Considere o leitor como muitos de nós ainda sentimos a necessidade de fugir do ainda duro contexto em que vivemos e nublar, anestesiar a mente consciente pelo uso do álcool, de drogas, por processos depressivos ou mesmo a fuga às responsabilidades das quais estamos certamente cientes.

“A estrutura social que emerge com o tempo, como resultado da “batalha dos deuses”, poderia ser comparada com mais precisão a uma personalidade (à personalidade adotada por todos os que partilham a mesma cultura). Na verdade, ela é a personalidade dos “heróis mortos do passado” (o “herói, conforme anteriormente percebido”) e é mais frequentemente simbolizada pela figura do Grande Pai, personificação simultânea da ordem e da tirania. A cultura liga a natureza. O Grande Pai arquetípico protege seus filhos do caos; retém a água pré-cosmogônica da qual tudo derivou, à qual tudo retornará; e serve de progenitor do herói. A capacidade protetora da tradição benevolente, materializada na forma de ordem política, constitui um tema narrativo/mitológico comum.” (Peterson, 1999)

A cada nova encarnação, privados do acesso integral à nossa memória espiritual, desenvolvemos nossa cosmovisão à partir de nossa experiência familiar e cultural. É do ambiente externo que recebemos vasto corpo de valores e padrões morais e comportamentais.

“Desde o primeiro sorriso do bebê, e especialmente quando ele pronuncia as primeiras palavras, ele fica sujeito a uma influência social, que, inicialmente, é apenas leve, mas cresce mais e mais constrangedora, até começar a simplesmente esculpir canais em sua mente e finalmente modelá-la até que talvez altere-a fundamentalmente.” (Piaget, 1925/5)

Nosso ego se estrutura a partir do contato e compreensão destes conteúdos, se identificando com ele afetivamente. Percebemos que tudo aquilo que se opõe à cultura vigente desafia seu equilíbrio e coloca-nos sob o risco da rejeição. A concepção de Freud acerca do superego como uma autoridade exterior introjetada se encaixa bem a este contexto. É desta forma, a partir de mecanismos supressivos e repressivos, que o ego estabelece em cada um de nós a ética heterônoma, os custumes, a cultura vigente.


Os processos de supressão se dão na intimidade de cada um de nós pela eliminação orquestrada pelo ego de todos os conteúdos (tendências, sentimentos, desejos, ideias etc.) conscienciais percebidos como estando em desarmonia à ética e cultura vigente. Efetua-se uma divisão na mente segundo a qual os valores heterônomos se associam ao bem, ao belo, ao correto, ao divino e ao desejável e tudo o mais, tudo o que vá de encontro a tais valores, deve ser considerado mal, feio, errado, demoníaco e desprezível. É segundo este processo que se forma a estrutura psíquica a que Carl Jung denominou “sombra”.

“A sombra personifica tudo o que o sujeito se recusa a reconhecer sobre si mesmo e ainda está sempre se lançando sobre ele direta ou indiretamente - por exemplo, traços inferiores de caráter e outras tendências incompatíveis.” (Jung C. , C. G. Jung Letters: 1951-1961, 1990)

“A sombra é um problema moral que desafia toda a personalidade do ego, pois ninguém pode se tornar consciente da sombra sem um esforço moral considerável. Tornar-se consciente disso envolve reconhecer os aspectos sombrios da personalidade como presentes e reais. Esse ato é a condição essencial para qualquer tipo de autoconhecimento e, portanto, geralmente encontra resistência considerável. De fato, o autoconhecimento como medida psicoterapêutica frequentemente requer muito trabalho meticuloso, que se estende por um longo período.” (Jung C. , Aion, 1951)

A repressão, por sua vez, é um instrumento de controle social imposto à partir da ação coletiva dos indivíduos de uma mesma cultura. É a própria imposição do corpo de valores e padrões morais e comportamentais a cada indivíduo de uma coletividade pela própria coletividade. Assim, repressão e supressão, de certa forma, se amalgamam formando um forte e complexo sistema psíquico que impõe uma certa noção de ordem a cada indivíduo. Esta ordem, ao mesmo tempo, protege aqueles que a ela se submeter e pune aqueles que a ela se impõe. Nenhum de nós foge a esta regra.


É minha concepção atual a de que os processos de construção da sombra e repressão social, assim como o empuxo psíquico do inconsciente já também explanado, constiutuem os dois maiores desafios ao desenvolvimento da consciência, do espírito humano. É a extensão com que a consciência triunfa no confronto com essas forças psíquicas que determina sua autonomia, força e autoridade espiritual. Portanto, apenas aquele que é capaz de triunfar heroicamente entre a ordem e o caos pode ser considerado autônomo. Assim, pela lei de Ação e Reação (também conhecida por Lei do Carma) vamos de vida em vida expandindo nosso foco consciencial da amoralidade à heteronomia, da heteronomia à autonomia, até a plena compreensão e expressão da Lei Moral Natural, a única capaz de estabelecer ordem permanente (a ordem divina).

“Existe, então, em todo homem, certo conhecimento da lei, isto é, um discernimento natural do certo e do errado. Este discernimento é o que é chamado consciência, ou às vezes o senso moral. Consciência é um ato da mente, um julgamento. Mas não é apenas a mente que se torna consciente do certo e do errado, é o coração.” (Janet, 1884)

Note, portanto, que o desenvolvimento consciencial humano ao longo de múltiplas existências pode ser compreendido como nossa progressiva capacitação à utilização das faculdades da mente consciente assim como nossa expressão consciente segundo a Lei Moral Natural. Perceba também que nossa aptidão a agir com amor é diretamente proporcional a nossa capacidade de apreender e expressar a Lei Moral Natural, já que este é o código moral natural a todo o universo. Assim expressar a Lei Moral Natural equivale-se a expressar a voz do sagrado e unificarmo-nos ao todo, voluntária e conscientemente. A identificação dessa unidade divina invariavelmente nos reconecta à nossa origem eterna e universal. Portanto, a evolução consciencial nos traz a convicção de nossa natureza espiritual e, ao agirmos no mundo físico a partir desta certeza, passamos a trilhar cada vez menos pelos caminhos do medo, do ódio, do orgulho, do egoísmo e do materialismo; assim como ampliamos nossa saúde integral, liberdade e responsabilidade. A autonomia a que nos referimos em todo este trabalho, portanto, pode ser sintetizada como sendo a religião do herói mitológico.

“Da mesma forma que a raça humana evolui biologicamente, a consciência do homem também vem evoluindo, e agora é o momento em que a humanidade pode entender e estudar as leis desse processo evolutivo, já tão conhecido dos antigos, mas ainda não explicado ou entendido pela ciência...” (Krishna, 1988)

[1] Este seja talvez o fato de ter Jesus se expressado por metáforas e alegorias.



Referências

  • Krishna, G. (1988). Higher Consciousness and Kundalini. F.I.N.D. Research Trust.

  • Janet, P. (1884). Elements of Morals

  • Jung, C. (1951). Aion (Vols. Collcted Works - Volume 9, Part II). Princeton University Press.

  • Jung, C. (1990). C. G. Jung Letters: 1951-1961 (Vols. (G. Adler & A. Jaffé, eds., R. F. C. Hull, trad., Vol. 2).). Brighton, United Kingdom: Routledge.

  • Piaget, J. (1925/5). Psychologie et critique de la connaissance. 19, pp. 193–210. Fonte: www.richardkohler.ch/piagetbiblio.htm

  • Neumann, E. (1954). The Origins and History of Consciousness. New York: Princeton University Press.

  • Peterson, J. B. (1999). Mapas do Significado - A Arquitetura da Crença. (E. M. Filho, Ed., & A. Cesar, Trad.) É Realizações Editora.

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