HUMANIDADE AUTÔNOMA

Atualizado: Jun 27


“Devo dizer que o homem que chamamos moderno, o homem que tem consciência do presente imediato, não é de modo algum o homem comum. Ele é antes o homem que se ergue sobre um pico, ou no extremo do mundo, com o abismo do futuro diante de si. Acima dele os céus e abaixo, toda a humanidade com uma história que desaparece nas brumas primitivas. (...) Existem poucos que cumprem o título, pois devem estar conscientes em um grau superlativo. Uma vez que ser totalmente do presente significa estar plenamente consciente de sua própria existência como ser humano. Faz-se necessário uma consciência mais intensa e extensa, com um mínimo de inconsciência. Deve-se entender claramente que o mero fato de viver no presente não torna o homem moderno, pois nesse caso todos os que estão vivos no momento o fariam. Só é moderno aquele que tem plena consciência do presente. (...) cada passo em direção a uma consciência mais completa do presente o afasta ainda mais de sua "mística de participação" original com a massa de homens da submersão em uma inconsciência comum. Cada passo à frente significa um ato de se libertar dessa inconsciência abrangente e primitiva que reivindica quase toda a humanidade. (...)

Os valores e esforços daqueles mundos passados ​​não o interessam mais, salvo do ponto de vista histórico. Assim, ele se tornou "não-histórico" no sentido mais profundo e se afastou da massa de homens que vivem inteiramente dentro dos limites da tradição. De fato, ele é completamente moderno somente quando chegou aos confins do mundo, deixando para trás tudo o que foi descartado e superado e reconhecendo que está diante de um vazio do qual todas as coisas podem crescer.” (Jung, 2011)


Acreditamos estar a Terra realmente passando por uma transição peculiar, que transformará profundamente nosso sistema de vida. Alguns chamam esta nova era do globo terrestre de Era de Aquário, outros preferem considerá-la Era de Regeneração, outros mais a denominam Nova Terra, Nova Era ou ainda Planeta Tipo 1[1]. A terminologia utilizada realmente não importa, o que importa é nossa compreensão do que muda e como isso nos afeta. Afinal de contas, seria-nos ingênuo pensar que podemos sentar e esperar... que como um passe de mágica tudo se reformará enquanto assistimos o nosso jornal, novela ou reality show! Muito pelo contrário, precisamos colocar a mão na massa, ou melhor, precisamos ser a levedura da massa, realmente catalisando as mudanças que desejamos ver no mundo. As transformações externas são o reflexo daquelas realizadas internamente por nós, curando-nos emocional e espiritualmente! Essas reformas íntimas precisam acontecer de maneira cada vez mais ampla, abarcando coletividades cada vez maiores a fim de que nossa humanidade esteja progressivamente mais aberta à colaboração fraterna e cocriação autônoma de um mundo pacífico e feliz. Diante da realidade que hoje se nos apresenta, tal cenário pode parecer improvável, mas é nossa intenção ao escrevermos este texto refletirmos as bases deste mundo futuro – bases estas que já hoje podem ser observadas não na Terra como um todo, mas em “ilhas regeneradas”, se assim podemos nos expressar, e no trabalho dos catalisadores deste porvir, ou seja, os pioneiros da Nova Humanidade.

Muito pouco do que aqui apresentaremos pode ser descrito como trabalho original. Contamos assim com diversas inspirações que nos são mais ou menos claras. A Nova Terra já vem sendo anunciada há algum tempo[2]por muitas das mentes mais revolucionárias de nossa história. Dentre os trabalhos e autores que mais profundamente inspiraram este artigo, enfatizamos a obra de Carl Jung, “Modern Man in Search of a Soul” (Homem Moderno em Busca de uma Alma). O conceito de “Homem Moderno” de Jung, assim como talvez o “Super-homem” de Nietzsche, são exemplos do prenúncio de uma Nova Humanidade por mentes brilhantes. O trabalho de Jung nos inspirou profundamente, de forma que vários raciocínios aqui desenvolvidos se ancoram em passagens deste livro. Neste trabalho, entretanto, não nos referiremos à Nova Humanidade como “Homem Moderno” e sim abordando aquela característica que acreditamos lhe ser essencial: a autonomia. Explicaremos nossa concepção de autonomia com alguma profundidade, procurando indicar porque a percebemos como o catalizador de uma nova realidade social na Terra, um grande divisor de águas separando o joio do trigo e o mundo velho desta Nova Terra que já a largos passos se apresenta. Mas vamos por partes...


DA GÊNESE AO MUNDO MODERNO


13.8 bilhões de anos atrás, a história do nosso universo teria começado após este misterioso milagre, o Big Bang. Daí em diante planetas se formaram, átomos se organizaram em moléculas, moléculas se espiralaram em cadeias de DNA, a vida acontece primeiramente em seres unicelulares para então evoluir para seres maiores... e plantas e peixes e répteis e aves e mamíferos... e deste grande sistema de vida inconsciente emerge seres humanos, conscientes de si! Seria o acaso responsável por tudo isso? Seria o Big Bang, se é que tal modelo está mesmo correto, apenas um amálgama super denso de toda a matéria contida no universo? O que fez surgir a vida? Porque desta explosão inicial criou-se mais matéria do que antimatéria, permitindo a existência de nosso universo? Como o processo evolutivo do universo criou seres conscientes de si, capazes de inteligir caracteres como este texto que você está lendo agora? Qual a origem das emoções que sente ao significar este artigo? E o que significa tudo isso? Poderia mesmo toda a realidade do universo ser consequência de um Big Bang estritamente material? Em outras palavras, como pode a consciência surgir da matéria ordinária? Não pode. Como atesta a já vasta literatura acerca de fenômenos anímicos ou parapsíquicos (como telepatia, clarividência, pré e retrocognição, telecinesia etc.), mediúnicos, pesquisas sobre vidas passadas incluindo aquelas relacionadas a regressões, experiências de quase morte, entre outras, a consciência não advém do cérebro, este apenas a restringe. Então, se a consciência não é um produto da matéria, o que é e de onde vem? Seria ela anterior à matéria? Seria ela, quem sabe, sua causa? E mais, o quão ousado seria conjecturarmos que toda a organização do universo, desde o Big Bang até o presente momento, desde poeiras atômicas até um ser pensante como eu e você seja orquestrado por um campo consciencial, se assim podemos nos expressar? Pois é isso mesmo que as mais avançadas proposições científicas dos últimos anos parecem sugerir: o todo é mental!

O que faz com que a humanidade da Idade Média seja considerada primitiva em relação à nossa? Seria o Homo Sapiens Sapiens desse passado não tão remoto o mesmo dos dias atuais? Assim como a fisiologia humana nos conecta com os mamíferos e exibe numerosas relíquias de estágios evolutivos anteriores que remontam à era reptiliana, a psique humana também é um produto da evolução e, por consequência, apresenta inúmeras características ancestrais. Ambos, a fisiologia e a psique, se encontram em evolução progressiva e constante. No entanto, quando falamos do ser humano neste artigo, temos em mente somente seu mundo psíquico, seu estado de consciência e seu modo de vida e não aspectos biológicos.

“Embora seja perfeitamente compreensível para nós que as pessoas morram em idade avançada ou como resultado de doenças que são reconhecidas como fatais, esse não é o caso do homem primitivo. Quando os idosos morrem, ele não acredita que seja resultado da idade. Ele argumenta que existem pessoas que envelheceram muito. Da mesma forma, ninguém morre como resultado de uma doença, pois houve outras pessoas que se recuperaram da mesma doença ou nunca a contraíram. Para ele, a verdadeira explicação é sempre mágica. Ou um espírito matou o homem, ou a feitiçaria o fez. Muitas tribos primitivas reconhecem a morte em batalha como a única morte natural.” (Jung, 2011)


Um grande equívoco de nossa civilização atual é considerar os seres humanos como o centro de toda a criação. Atingimos um desenvolvimento científico que nos permite entender o mundo físico e exercer um certo nível de controle sobre ele. Embora esse processo tenha melhorado drasticamente nossa qualidade de vida, no balanço temos também outras consequências que precisam ser revistas. Desviamos, por exemplo, da compreensão do todo como um sistema vivo e dinâmico e, em vez disso, passamos a considerar a natureza como algo a nos servir (já que somos o centro do sistema de vida terrestre). Nossas realizações alimentaram sentimentos vis, como o orgulho, a vaidade, a ganância, a arrogância... como o poder normalmente o faz quando em mãos despreparadas. A perda da perspectiva de vida sistêmica representou a morte de Gaia! A árvore da vida, uma representação arquetípica do pensamento sistêmico presente em tantas culturas antigas, deixou de fazer sentido para nós, sendo reduzida a belas e interessantes representações em joias e outros artefatos – muitas vezes adquiridos como souvenirs de viagens a locais que mantém de alguma forma este legado histórico-cultural. Outra consequência do exacerbado cientificismo moderno é a fragmentação do elemento mitológico, místico, religioso ou espiritual no tecido de nossa cultura: a morte de Deus, como brilhantemente afirmou Nietzsche. Tornamo-nos excessivamente racionais, a ponto de nos considerarmos não só capazes, mas perto de desvendar todos os segredos da natureza e da vida. Essa mentalidade ficou bem evidenciada nos tempos do Projeto Genoma Humano, quando se acreditava que a decodificação do nosso genoma explicaria tudo sobre nós, e pode ser novamente observada nos dias de hoje, por exemplo, nos diversos projetos de desenvolvimento da inteligência artificial. No entanto, nem o mapeamento do genoma humano revelou nossas origens ou explicou tudo sobre os seres humanos, nem a inteligência artificial nos aproximou significativamente da compreensão da consciência simplesmente porque nossas máquinas podem efetuar operações lógicas e armazenar informação. Pelo contrário, quanto mais estudamos, mais somos convidados a refletir acerca da complexidade da vida e da consciência.

Uma reflexão ponderada e honesta invariavelmente nos leva à conclusão de que esquecemos quem somos e temos pouquíssimo conhecimento acerca de nossa origem, destino ou propósito. As duas consequências do racionalismo positivista descritas no parágrafo precedente elucidam bem alguns aspectos de nossa civilização atual e alguns dos problemas que observamos em nossa relação com o planeta Terra e seus diversos hóspedes. Assim, convém-nos ponderar sobre a mentalidade do “homem arcaico”, segundo descreve Jung, em relação a nossa civilização atual a fim de desenvolvermos alicerces melhores para uma futura civilização já que, de fato, os homens primitivos não são mais lógicos ou ilógicos do que nós, mas apenas concebem o mundo por bases culturais diferenciadas. O que nos distingue deles são os pressupostos que fundamentam e ordenam nossa cosmovisão, o que fica evidente no seguinte excerto:


“Uma mulher que eu conheço foi acordada uma manhã por um tilintar peculiar em sua mesa de cabeceira. Depois de examiná-la por um tempo, descobriu a causa: a base da mesa havia se soltado cerca de um quarto de polegada de largura. Isso lhe pareceu peculiar, e ela trocou por outra. Cerca de cinco minutos depois, ela ouviu o mesmo tilintar, e novamente se quebrou. Desta vez, ficou muito inquieta e trouxe um terceiro. Dentro de vinte minutos, se quebrou novamente com o mesmo barulho. Três desses acidentes em sucessão imediata foram demais para ela. Ela desistiu da crença em causas naturais no local e trouxe em seu lugar uma "representação coletiva" - a convicção de que um poder arbitrário estava em ação. Algo assim acontece com muitas pessoas modernas - desde que não sejam muito obstinadas - quando são confrontadas com eventos que a causa natural não consegue explicar. Naturalmente, preferimos negar tais ocorrências. Eles são desagradáveis ​​porque perturbam o curso ordenado do nosso mundo e fazem com que tudo pareça possível. O efeito deles sobre nós mostra que a mente primitiva ainda não está morta.” (Jung, 2011)


Percebemos no trecho acima como a falência de uma visão de mundo puramente materialista como pano de fundo para a explicação lógica do fenômeno da quebra da base da mesa repetidas vezes levou a mulher a considerar causas alternativas, naturalmente de origem “sobrenatural”. Como nossa presente cultura não trata tais questões como “naturais” e delas pouco conhece, é de certa forma normal que sua evocação seja acompanhada pelo medo. O desconhecido, de fato, frequentemente instiga-nos medo. Mas o que hoje nos é desconhecido foi bastante natural a muitas civilizações do passado, de forma que para ir além precisamos resgatar aquilo que perdemos, ou melhor, esquecemos ao longo de nossa caminhada evolutiva.

Aqui se torna necessária uma discussão mais extensa e lúcida acerca do processo de individuação, ou, em outras palavras, reforma íntima ou ainda autodesenvolvimento; resolvendo complexos ancestrais e permitindo a expressão pessoal no tempo presente (e, por conseguinte, a construção do futuro) não como uma resposta mais ou menos automatizada, instintiva à estímulos traumáticos mal resolvidos e sim em harmonia com tudo o que estabelecemos como características do estado consciencial autônomo. É isso que, como bem expressou Jung, faz com que “o homem que chamamos moderno, o homem que tem consciência do presente imediato, não [seja] de modo algum o homem comum. (...) o mero fato de viver no presente não torna o homem moderno, pois nesse caso todos os que estão vivos no momento o fariam”.


“Quão totalmente diferente o mundo parecia para o homem medieval! Para ele, a Terra estava eternamente fixa e em repouso no centro do universo, cercada pelo curso de um sol que solicitava seu calor. Os homens eram todos filhos de Deus, sob os cuidados amorosos do Altíssimo, que os prepararam para a bênção eterna; e todos sabiam exatamente o que deveriam fazer e como deveriam se comportar para subir de um mundo corruptível para uma existência incorruptível e alegre. Essa vida não parece mais real para nós, mesmo em nossos sonhos. A ciência natural há muito tempo rasgou esse lindo véu em pedaços. Essa era está tão atrasada quanto a infância, quando o próprio pai era inquestionavelmente o homem mais bonito e mais forte do mundo.” (Jung, 2011)


“O crescimento rápido e mundial de um interesse "psicológico" nas últimas duas décadas mostra inconfundivelmente que o homem moderno, em certa medida, voltou sua atenção das coisas materiais para seus próprios processos subjetivos. Devemos chamar isso de mera curiosidade? De qualquer forma, a arte tem um meio de antecipar mudanças futuras na perspectiva fundamental do homem, e a arte expressionista tomou esse rumo subjetivo muito antes da mudança mais geral. Esse interesse "psicológico" da atualidade mostra que o homem espera algo da vida psíquica que ele não recebeu do mundo exterior: algo que nossas religiões, sem dúvida, deveriam conter, mas não contêm mais - pelo menos para o homem moderno. As várias formas de religião não parecem mais para o homem moderno vir de dentro - são expressões de sua própria vida psíquica; para ele, eles devem ser classificados com as coisas do mundo exterior.” (Jung, 2011)


O rápido avanço científico e tecnológico do último século nos trouxe conforto e qualidade de vida; permitiu-nos dedicar maior tempo a atividades intelectuais. No entanto, seu impacto mais profundo talvez esteja relacionado à dissolução de nossas raízes culturais. Em perspectiva cosmológica mais ampla,[3] o desenvolvimento científico e tecnológico obtido por nossa civilização terrena é, muito provavelmente, ainda bastante rudimentar. O que realmente importa é a revolução consciencial e cultural que ela provoca, levando-nos a nos informar e a raciocinar de maneira aprimorada, questionando quadros culturais e nos conectando de forma cada vez mais intensa e extensa. Se há apenas alguns séculos as bases socioculturais pouco se alteravam entre uma geração e outra, hoje em dia vivemos em um mundo veloz, que se altera de forma profunda e constante a cada ano. No passado ainda recente, avós, pais e filhos muito frequentemente compartilhavam as mesmas crenças, profissão, vilarejo... ou seja, pouco se alterava entre uma geração e outra. Os mitos civilizatórios, base do inconsciente coletivo, eram passados dos pais para os filhos, assim como ofício, religião, educação e quase tudo o mais. Os alicerces do mundo se mantinham bastante estáveis entre múltiplas gerações. A vida era predominantemente agrária; o tempo, mais devagar. Mas então vieram as fábricas, e o cotidiano terrestre se urbanizou. Mal tivemos tempo de absorver esta profunda mudança e o mundo se digitalizou... e nos conectamos mundialmente pela internet... e as máquinas que estavam nas fábricas passaram a ser portadas por nós praticamente o tempo todo. O mundo de hoje rompeu quase que completamente com suas raízes, suas tradições. A continuidade civilizatória que antes se observava, hoje não se verifica mais. Equipamentos de apenas 2 ou 5 anos são na maior parte obsoletos e a humanidade continua a reorganizar suas bases de vida em congruência com os avanços da ciência e tecnologia. Não é à toa, portanto, que a humanidade dos tempos de hoje se apresenta ansiosa, deprimida, confusa e com um sentimento de vazio do qual não compreende nem a origem nem a aplicabilidade. Muitos queremos servir, mas não sabemos como. Não sabemos com quem compartilhar tais perspectivas ou por onde começar. Sentimo-nos sozinhos e mal compreendidos. Queremos nos reestabelecer sobre bases mais sólidas, mas o mundo se apresenta invariavelmente líquido, como expresso por Zygmunt Bauman. Erich Neumann fez considerações surpreendentes sobre o fenômeno de desintegração de nosso legado cultural há cerca de cinquenta anos, algumas das quais são melhor observadas hoje em dia e justificam os estudos mais aprofundados a serem produzidos no futuro. Neste momento, apresentamos somente o seguinte trecho:


“A revolução global que se apoderou do homem moderno e cujo centro de tempestade se nos apresenta nos dias de hoje, com sua transvalorização de todos os valores, levou-nos a uma perda de orientação na parte e no todo, e diariamente temos novas e dolorosas experiências de suas repercussões na vida política do coletivo bem como na vida psicológica do indivíduo. ” (Neumann, 1954)


O que ocorre aos arquétipos da mente humana neste momento de profunda transformação de nosso inconsciente coletivo? Quais mudanças profundas se desenrolam no âmago das almas que hoje se veem reencarnadas em um mundo que se apresenta como uma matriz de infinitas possibilidades? Envolto às respostas apresentadas pelas religiões, pelas ciências, ou por correntes mais espiritualistas ou esotéricas, o ser humano atual é chamado a se posicionar de forma mais contundente. E seu posicionamento redefine o progresso do mundo... Dá-se uma interação constante entre as realidades interna e externa e é neste processo, já bem desenvolvido nos dias de hoje, que estão sendo gestadas uma nova humanidade e uma nova Terra. Que nova realidade queremos cocriar? E será mesmo que devemos romper completamente com o passado, abandonando todo o nosso legado civilizatório?


"Um nível mais alto de consciência é como um fardo de culpa. Mas, como eu disse, apenas o homem que superou os estágios da consciência pertencentes ao passado e cumpriu amplamente os deveres designados para ele por seu mundo, pode alcançar uma consciência plena do presente. Para fazer isso, ele deve ser sólido e competente no melhor sentido - um homem que alcançou tanto quanto as outras pessoas e até um pouco mais. São essas qualidades que lhe permitem obter o próximo nível mais alto de consciência.

Sei que a ideia de proficiência é especialmente repugnante para os pseudo-modernos, pois os lembra desagradavelmente de seus enganos. Isso, no entanto, não pode impedir-nos de tomá-la como nosso critério para o homem moderno. Somos forçados a fazê-lo, pois, a menos que ele seja proficiente, o homem que afirma ser moderno não passa de um jogador sem escrúpulos. Ele deve ser proficiente no mais alto grau, pois, a menos que possa reconciliar pela capacidade criativa por romper com a tradição, ele é meramente desleal ao passado." (Jung, 2011)


AUTONOMIA, O GRANDE CATALISADOR DA NOVA HUMANIDADE


Muitos se consideram prontos para estabelecer uma nova humanidade, sem perceberem o quanto são autômatos de ideologias heterônomas. Não há atalhos no processo de depuração consciencial. Nenhuma geração pode ser ingênua ao ponto de acreditar que transcenderá todo o seu legado sem antes absorvê-lo e resolvê-lo. Não há como construir um futuro brilhante enquanto abrigamos nódulos trevosos em nossos corações. Assim, é preciso cuidar para não cairmos em erros comuns atualmente, como transferir a responsabilidade de construção de uma nova humanidade para a geração que se sucede ou considerar-se já possuidor de respostas completas para a elaboração de uma sociedade fraterna. É de fundamental importância que a juventude de hoje seja educada e orientada pelas gerações mais maduras. Com isso não queremos dizer que deva replicar as respostas e escolhas feitas por seus ancestrais, mas sim estabelecer-se no mundo com conhecimento e segurança suficientes para que encontre no âmago de sua alma respostas mais lúcidas e autônomas, seguindo uma conexão mais profunda com aquilo geralmente referido por Lei Natural ou ainda Lei Moral Natural.


“614. Que se deve entender por Lei Natural?

‘A lei natural é a lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer, e ele só é infeliz quando dela se afasta.’” (Kardec, O Livro dos Espíritos, 1857)


Quando este processo não é observado, frequentemente se percebe a expressão dos “pseudo-modernos”, segundo designou Jung:


“De fato, uma grande horda de pessoas sem valor se dá ao ar de serem modernas, superpondo os vários estágios de desenvolvimento e as tarefas da vida que eles representam. Aparecem repentinamente ao lado do homem verdadeiramente moderno como seres humanos desenraizados, fantasmas sugadores de sangue cujo vazio é tomado pela solidão invejável do homem moderno, ao qual lançam descrédito. (...)

Muitas pessoas se chamam modernas – especialmente os pseudo-modernos. Portanto, o homem realmente moderno é frequentemente encontrado entre aqueles que se dizem antiquados. Ele assume essa posição por várias razões. Por um lado, ele enfatiza o passado, a fim de manter a balança contra sua ruptura com a tradição e o efeito de culpa de que falei. Por outro lado, ele deseja evitar ser tomado por um pseudo-moderno.” (Jung, 2011)


E quem seriam os pseudo-modernos senão aqueles que pretensiosamente já se dizem prontos? Aqueles que com pouquíssima instrução e experiência de vida se julgam capazes de ditar regras novas para um mundo mais justo e pacífico?[4] Aqueles que desdenham das tradições culturais, se julgando prepotentemente cidadão do futuro. Massas de manobra de ideologias sociais que acreditam conhecer mas que, por ignorar as suas origens, também não percebem seu real propósito – a riqueza e o poder. Frequentemente encontrados entre os ídolos da ciência materialista, os pseudo-modernos fazem hoje em dia bastante barulho, mas pouco contribuem para uma real transformação planetária. Muitos têm intenções sinceras, mas ainda estão longe de estar prontos. Ainda não identificaram ou enfrentaram muitas de suas sombras internas. Não é possível reformar o mundo quando ainda não se reformou nem mesmo a própria casa.

Acreditamos não ser exagerado afirmar que todas as civilizações terrestres, do passado aos dias de hoje, fundamentaram-se em bases heterônomas claramente expressas nas instituições, religiões e leis adotadas. Valores da moralidade heterônoma se confundem com valores da própria cultura, arraigados no senso comum. Se o conceito de heteronomia não lhe é familiar, entenda-o como sendo o oposto da autonomia, ou seja, um sistema ético no qual as normas de conduta provêm do ambiente externo e são impostas ao indivíduo. “Hetero” em grego significa “diverso” e “momos”, “lei” ou “regras”. Assim, a condição de se estar governado, coagido, ou sob o domínio externo é heterônoma por natureza.

A grande maioria de nós pensa viver em liberdade, alienados de quantos valores, ideias e ideais nos foram e são ensinados, inspirados ou impostos. Somos de maneira geral livres fisicamente, mais ou menos resolvidos emocionalmente, porém ainda largamente acorrentados à paradigmas retrógrados, como escravos conscienciais ainda temerosos de assumirmos a nós mesmos. Você já procurou saber a origem de suas ideias? Não nos referimos ao autor ou personalidade que acredita ter lhe transmitido um conceito ou outro, mas como tais conceitos se desenvolveram ao longo da história a partir de milhares de mentes aparentemente desconectadas. Já parou para pensar na complexa organização da natureza, do universo? Que inteligência rege tudo isso? Estaremos alienados a ela? Estamos desvencilhados dela? Quão despertos realmente estamos?

Já deve estar claro neste ponto que todas as religiões são heterônomas. Segundo uma reflexão pessoal, todas elas nos parecem apresentar um sistema de crenças e conduta moral fixas, com mecanismos de recompensa e punição desprovidos de uma relação realmente íntima com a verdade. Podemos dizer, portanto, que caracterizam tentativas humanas de interpretar a verdade, mas apresentam apenas paradigmas retrógrados, cristalizados em dogmas imutáveis. A concepção de autonomia que procuramos estabelecer aqui é baseada no despertar das faculdades íntimas do ser, na relação individual e continuamente mais profunda que cada consciência é capaz de estabelecer com si próprio e com o todo. Indivíduos autônomos estão em harmonia com a Lei Moral Natural, o que podemos descrever como centelha divina de amor, raiz de nossa vida moral.

Exceções à parte, uma vez que constituem uma miríade de desvios temporários à norma aqui descrita, ninguém precisa necessariamente de um sistema legal para diferenciar o certo do errado. Este conhecimento é natural e inato em nós, obviamente em diferentes graus relativos, embora todos nós convergimos individualmente para a mesma apreensão total da verdade. O sistema legal de cada sociedade simplesmente expressa a percepção coletiva de seus membros acerca daquilo que lhes é percebido como sendo justo e bom.

Cada um de nós expressa empatia e compaixão. Todos nós nos arrependemos, sentimos remorso, imprimimos autopunição; até mesmo quando nenhum “crime” (entendendo “crime” como uma “lei” moral ou “regra de conduta social” imposta ou estabelecida de forma heterônoma) foi cometido. Nosso compasso moral não depende das regras sociais a que estamos submetidos, mas as transcende e tem vida própria. A profunda compreensão disto nos leva ao despertar espiritual e a uma percepção mais ampla de nosso propósito de vida. Atinge-se um estado de transcendência, porque não dizer, mística. A convicção do pertencimento a algo muito maior do que a Terra ou o presente. Abre-se os olhos da alma, nasce um novo ser, ao nosso ver, merecedor de uma Nova Humanidade em uma Nova Terra – um ser humano autônomo. Eckhart Tolle em “O Despertar De Uma Nova Consciência” descreve bem este novo e emergente estado de consciência ao qual descrevemos em trechos como este a seguir:


“Sem viver alinhado com o seu objetivo principal, qualquer que seja o seu objetivo, mesmo que seja para criar o céu na Terra, será do ego ou será destruído pelo tempo. Mais cedo ou mais tarde, levará ao sofrimento. Se você ignora seu propósito interior, não importa o que faça, mesmo que pareça espiritual, o ego se insinua como você o faz, e assim os meios corrompem o fim. O ditado comum “O caminho para o inferno é pavimentado com boas intenções” aponta para essa verdade. Em outras palavras, não seus objetivos ou ações são primários, mas o estado de consciência do qual eles provêm. Cumprir seu objetivo principal é estabelecer as bases para uma nova realidade, uma nova terra. Uma vez que esse fundamento existe, seu objetivo externo fica carregado de poder espiritual, porque seus objetivos e intenções serão um com o impulso evolutivo do universo.” (Tolle, A New Earth: awakening to your life’s purpose, 2005)


É preciso que o conceito de autonomia como estado consciencial superior assim como as consequências sociais de seu estabelecimento em massa na Terra estejam bastante claros, já que são pontos cruciais deste texto. Acreditamos ser o estabelecimento da autonomia no cerne da humanidade terrena fator sine qua non para a fundamentação de uma realidade social significantemente nova. Aquela que traze revoluções positivas profundas a todas as instituições e relações humanas. Nenhum modelo político, econômico ou social em prática nos dias de hoje passará sem sofrer profundas transformações. Isso porque a interiorização, ou espiritualização, que se segue como consequência natural do estado consciencial autônomo fará com que as relações humanas sejam naturalmente mais justas e fraternas – uma nova ordem de natureza superior, originária do contato humano íntimo e íntegro com a Lei Moral Natural. Paz, justiça e felicidade só podem se estabelecer de forma estável e verdadeira quando honestamente emanadas do coração humano. Como apontou Allan Kardec há mais de 150 anos:


“(...) a fraternidade, assim como a caridade, não se impõe nem se decreta; é preciso que esteja no coração e não será um sistema que a fará nascer se lá ela não estiver; caso contrário o sistema ruirá”. (Kardec, Viagem Espírita em 1862, 2007)


Vejamos, portanto, como a autonomia transformará nossas escolas. Atualmente, segundo nosso modelo materialista, cada criança entra na escola como sendo uma folha em branco. A cada ano, todas as folhas – isto é, os seres humanos de mesma idade – são preenchidas igualmente com conhecimento; afinal, suas aptidões devem atingir um certo padrão mínimo aceitável. Quando uma criança desponta em alguma disciplina, mostrando certo brilhantismo, nosso presente modelo não sabe bem o que fazer... estes “gênios” raros são pontos fora da curva e nosso modelo educacional foi projetado assumindo que todas as crianças são “folhas em branco” e assim, portanto, “normais”. Mas será mesmo? Quão “rara” é a genialidade? Será que todas, ou mesmo a maioria das crianças precisam aprender cada uma das disciplinas escolares e no mesmo ritmo? Será que cada criança matriculada na escola é mesmo uma folha em branco? E, enquanto aprendem, será que não deveriam tentar aplicar mais o conhecimento em sua vida e dedicarem-se aqueles assuntos que lhe cativam? Quanta informação pré-formatada nos é imposta por anos a fio e depois esquecida? Pense! O quanto do que aprendeu nas primeiras duas décadas de vida lhe é realmente útil atualmente? Quanta energia não foi direcionada a simplesmente ter a resposta correta no dia da prova? Estariam todos esses conteúdos perdidos ao serem esquecidos após a prova ou ainda lhe auxiliam nos dias de hoje? O que realmente aprendeu? Entre algumas coisas verdadeiramente úteis, talvez tenha aprendido a não pensar por si próprio, a seguir se comportando como ordenado, a manter as coisas como elas são. Talvez tenha aprendido a sufocar seus sonhos, seus talentos natos e a se comportar em uma sociedade heterônoma. Talvez ainda tudo isso faça-lhe postergar seu original propósito de vida, desalinhando-lhe de sua essência espiritual e conexão com a fonte criadora. O ponto central de todo este raciocínio é refletirmos o quanto realmente participamos ativamente de nossa própria educação, imprimindo presença a ela e adicionando a ela elementos que nos são singulares.


”A paz começa onde cada um de nós pode ser da forma que é, onde cada um de nós permite ao outro ser tal como é e ficar onde está”. Bert Hellinger


John Taylor Gatto, um professor da escola primária americana, aponta nosso problema educacional muito bem em seus livros, dentre os quais selecionamos alguns trechos abaixo:

“(...) as crianças mais improváveis ​​continuavam demonstrando, em vários momentos aleatórios, as marcas da excelência humana – insight, sabedoria, justiça, desenvoltura, coragem, originalidade – que fiquei confuso. Elas não o faziam com frequência suficiente para facilitar meu ensino, mas faziam sim com frequência tal que comecei a me perguntar, com relutância, se era possível que estar na escola fosse o que os estava embotando. Seria possível que eu fora contratado não para aumentar o poder das crianças, mas para diminuí-lo? Isso parecia uma loucura, mas aos poucos comecei a perceber que as sirenes e o confinamento, as sequências malucas, a segregação de idades, a falta de privacidade, a vigilância constante e todo o resto do currículo da escola foram concebidos exatamente como se alguém desejasse impedir que as crianças aprendessem a pensar e agir, persuadi-las ao vício e comportamento dependente.(...)

Eu desisti da ideia de que eu era um perito cujo trabalho era preencher as cabecinhas com minha experiência e comecei a explorar como eu poderia remover os obstáculos que impediram a expressão do gênio inerente das crianças. (...)


As crianças bem-sucedidas pensam como eu as ordeno com um mínimo de resistência e uma demonstração decente de entusiasmo. Dos milhões de coisas de valor para estudar, eu decido para que poucos temos tempo. Na verdade, isso é decidido pelos meus empregadores sem rosto. As escolhas são deles – por que eu deveria discutir? A curiosidade não tem lugar importante no meu trabalho, apenas a conformidade.