• Rodolfo de Oliveira

Despertos como Smith?

Artigo originalmente produzido em 2018



A palavra Matrix, derivada do Latim Mater, quer dizer mãe. Na trilogia homônima, a matrix tem exatamente esta acepção, a ser interpretada de diversas maneiras. Somos levados a acreditar que a matrix real, útero na qual a vida se desenvolve, é composta por uma civilização escravizada por máquinas que as usam como fonte de energia. Humanos em tal realidade são parasitados pelas máquinas enquanto são alimentados por elas com ilusões mentais. Tais ilusões constituem uma nova dimensão da matrix, aquela que oferece às mentes humanas aquilo de que necessitam para manterem-se escravizados.


Todo este universo Matrix serve como uma genial metáfora para o momento presente em que distraídos e, de certa forma, coagidos e monitorados por forças heterônomas diversas, a maioria dos humanos terrestres vivem completamente alienados de sua condição espiritual, perseguindo objetivos vãos enquanto são vampirizados e manipulados por inteligências que mal desconfiam existir. Analisando-se friamente, tal sistema pode parecer estar em perfeito equilíbrio – de precisão matemática –, onde máquinas recebem a energia de que precisam para sua subsistência enquanto oferecem aos humanos os delírios psíquicos de uma vida feliz.


Acontece que, como explicado na conversa entre o personagem principal, Neo, e o “Arquiteto”, a questão da “escolha”, ou livre arbítrio humano apresentou-se como fator de desequilíbrio inexorável em múltiplas versões da Matrix, fazendo com que as máquinas procurassem, a cada nova atualização, “corrigir” o problema, ainda sem sucesso. A proposta de correção daquela que já era a sexta versão da Matrix foi um programa “intuitivo”, a “Oráculo”. Tal discurso claramente apresenta a realidade espiritual humana, incapaz de viver em realidade puramente intelectual, sem emoções ou fatores transcendentais.


Todos os elementos de um contexto estruturado em bases heterônomas estão presentes na Matrix. Há hierarquias rígidas, governos e normas, expondo que estamos em uma prisão. Não porque vivemos em uma realidade simulada, mas porque somos escravos de uma realidade que não deseja que nos libertemos, impondo-se à nossas escolhas. Na trilogia, esta relação de poder é evidenciada a todo momento. Temos assim, por exemplo, o fato dos “agentes” serem capazes de se utilizarem do corpo de qualquer indivíduo que se encontre na condição de escravo da matrix quando bem quiserem a fim de eliminarem qualquer anomalia ao “perfeito” equilíbrio do sistema, ou seja, mantendo o império heterônomo do “Governo Oculto” das máquinas (por processo obsessivo, invadindo a mente daqueles passivos ao sistema). Eles são muitos, estão em todos os lugares, e tudo podem. Seu poder moderador de qualquer intransigência e rebeldia humana é inquestionável.


A cena, ainda no início do primeiro filme, em que a boca de Neo se fecha é também referência ao tipo de passividade desejada por um sistema opressor e o poder que tal sistema tem perante as liberdades individuais. Isso ocorre porque ele já estava a questionar a vida, as regras da sociedade em que estava inserido; levando uma vida dupla – expressando-se um como cidadão comum, em emprego comum e em uma existência comum, mas também atuando como hacker, invadindo programas, adquirindo senhas e rivalizando com a própria matrix.


Foram tais incursões digamos “autônomas” que o fizeram ser identificado por “Morpheus” - o deus dos sonhos da mitologia grega. É Morpheus que o liberta do “mundo dos sonhos”, trazendo-o para a cruel realidade daqueles que se encontravam fora da Matrix. Inserido nesta nova realidade, Neo se vê em situação de treinamento a fim de aprender a utilizar melhor sua mente e potencialidades.


Em cena icônica à condição de autonomia, um garoto ensina-o a entortar colheres com a mente, explicando que “a colher não existe” e, na verdade, “quem entorta é ele mesmo”. Ou seja, temos a ação convicta de um agente livre alterando as condições do meio e não sendo vítima deste. Criamos nossa própria realidade! Neo só passou a ser “o escolhido” quando venceu os próprios medos e se acreditou em tal condição.


Bom, todos os elementos apresentados acima demonstram como o filme captura bem o momento atual da humanidade, quando mais do que nunca, o sistema perde sua estabilidade e parcela cada vez maior das consciências humanas apresentam sinais de despertamento. Desejo, no entanto, discutir outro aspecto do filme cuja genialidade quase me faz duvidar que tenha sido proposital: o “Sr. Smith”.


Smith era um agente, como outros existentes no primeiro filme da trilogia. Porém, derrotado por Neo, ele perde sua função, seu propósito. No mundo matrix, todos os programas (e tudo nele são programas, incluindo os agentes) que falham em seu propósito são obsoletados e uma nova versão (uma atualização de software) os substituem, como fazemos quando melhoramos e/ou corrigimos falhas de programas de computador.


Como um programa “oficial”, Smith era a personificação simbólica da harmonia da Matrix. Obsoletado, entretanto, ele passou a ser um tipo de vírus, nutrindo propósitos de vingança contra Neo e atuando de forma descontrolada e independente da Matrix. Smith passa a não só invadir os corpos de escravos do sistema (as mentes dos humanos não despertos), mas também, como todo bom vírus, a se multiplicar, gerando clones de si mesmo.


Dessa forma, Smith pode ser encarado como a personificação de ideologias que originalmente visavam a harmonia, a paz, o equilíbrio, mas que, obsoletados por um novo contexto ou por suas próprias falhas intrínsecas, passam a sequestrar mentes e agir de forma violenta e arbitrária (características que, na verdade, já faziam parte de seu código original). E quantas não são tais ideologias “fora de controle” (ou contexto) nos dias de hoje, quando tudo aquilo que nos faz únicos deve ser ignorado e todos são encorajados a verem-se, artificialmente, como iguais – entendam aqueles que têm ouvidos de ouvir! Quantas não são as mentes invadidas por tais correntes ideológicas, clonadas, repetindo mantras absurdos em estado de hipnose coletiva?


Smith, segundo tal acepção, representa melhor a sociedade atual do que aquela de quando a trilogia ainda era recém-chegada às telas de todo o mundo. Seria ele uma profecia preliminar? Smith transforma muitos em Smith. Ele é o antagonismo por excelência do autoconhecimento, chave do desenvolvimento das potencialidades humanas superiores – e é por isso que precisamos falar sobre sua ação em nossa Matrix terrena.


Observe que ele não é um vilão comum: feio, forte e malvado. Ele foi concebido para manter a ordem. Se agia de forma autoritária, assim o fazia em prejuízo de alguns, mas para o benefício de todos. Sua pretensa função social positiva se justifica já que, sem tais programas (leia-se ideologias de controle e coerção), a realidade Matrix poderia entrar em crise. Por isso, todos os meios eram válidos para que a estabilidade fosse mantida – os fins justificam os meios. Fora de controle, ele tornou-se um fator de risco à própria Matrix. Smith, para mim, representa as loucuras modernas travestidas por causas nobres e bem-intencionadas, mas que ceifam os valores mais caros ao ser humano – a liberdade, a diversidade, a autonomia e o autoconhecimento.


Todos os sábios de todos os tempos apontaram, apontam e apontarão o autoconhecimento como fator primordial para a auto-transcedência, ou se preferir, evolução espiritual. Desconhecer-se significa estagnar-se, perder-se na superfície ilusória da falta de intimidade consigo mesmo. Desconhecer-se significa ignorar suas conquistas, traumas, deficiências, potencialidades, virtudes, valores, amores e tudo o mais. Desconhecer-se significa abdicar-se de toda a humanidade para viver um papel social – assim como o de Smith.


A nova era da humanidade não se dará por supressão das diversidades humanas a fim de promover-se a igualdade. Não se deve eliminar tudo aquilo que faz com que eu e você sejamos criaturas únicas, e nós somos mesmo! Somos o resultado de muitos milênios de co-evolução individual a partir da mesma essência. Muito provavelmente já fomos de tudo... homem, mulher, branco, negro, amarelo (quem sabe verde, vermelho...), rico, pobre... (quem sabe reptiliano ou insectóide...). Enfim, na realidade eterna da alma, somos e seremos muitas coisas ainda no mundo das formas. É essa certeza, então, que trará a igualdade ao mundo social. Percebe quanta perda de tempo e energia sem sentido está em procurarmos corrigir erros históricos? Os credores somos nós mesmos. O passado passou e o que realmente importa agora é o presente, no qual expressamos quem somos e construímos nosso futuro! Eckhart Tolle explica muito bem o que procuro expressar ao dizer que:


“Um ressentimento antigo é chamado de rancor. Carregar um sentimento desse tipo é estar permanentemente no estado "contra", e é por isso que o rancor constitui uma parte significativa do ego de muita gente. Quando coletivo, ele pode sobreviver por séculos na psique de um país ou de uma tribo e alimentar um ciclo interminável de violência.
Um rancor é uma forte emoção negativa ligada a um acontecimento ocorrido no passado, algumas vezes distante, que é mantido vivo pelo pensamento compulsivo que reconta a história, na cabeça ou em voz alta, "do que alguém me fez" ou "do que alguém nos fez". Esse sentimento também é capaz de contaminar outras áreas da vida. Por exemplo, enquanto pensamos sobre o rancor e o sentimos, sua energia emocional nefasta pode distorcer nossa percepção de um acontecimento que está ocorrendo naquele momento ou influenciar a maneira como falamos com alguém no presente ou nosso comportamento em relação a essa pessoa.” (Tolle, 2007)

Vivamos no presente então, não desconectados do passado ou do futuro, mas atribuindo-lhes a importância e influência que realmente merecem. Como dizia Chico: "Ninguém pode voltar atrás e fazer um novo começo. Mas qualquer um pode recomeçar e fazer um novo fim". O presente não está desconectado do passado ou do futuro, mas é o núcleo, o ápice no qual se encontram as nossas possibilidades quânticas de expressões pessoal e coletivas.


Por que não perdoarmos a nós mesmos e tratarmos uns aos outros com igualdade humanitária, exaltando e celebrando as diversidades reais? Tolle completa o raciocínio anterior com a seguinte passagem:


“É preciso honestidade para verificarmos se ainda guardamos rancores, se existe alguém na nossa vida que não conseguimos perdoar completamente, um "inimigo". Caso você esteja nessa situação, tome consciência do rancor tanto no nível do pensamento quanto no nível emocional, ou seja, conscientize-se dos pensamentos que mantêm a continuidade desse sentimento negativo e sinta a emoção, que é a reação do corpo a esses pensamentos. Não tente deixar o rancor de lado. Tentar perdoar não dá certo. O perdão acontece de modo natural quando entendemos que o rancor não tem outro propósito a não ser fortalecer uma falsa percepção do eu, ou seja, possibilitar a existência do ego. Compreender é libertar-se. O ensinamento de Jesus sobre "perdoar os inimigos" trata, em essência, de desfazer uma das principais estruturas egóicas da mente humana.
O passado não tem força para nos impedir de viver no estado de presença agora. Apenas o rancor em relação ao passado pode fazer isso. E o que é o rancor? A bagagem de velhos pensamentos e antigas emoções.” (Tolle, 2007)

Por que não aprendermos e ensinarmos uns aos outros exemplificando a fraternidade? Será mesmo que para a efetivação da igualdade na sociedade temos que sacrificar a liberdade? Em âmbito um pouco diverso e a sua própria maneira, Olavo de Carvalho expressa similar percepção ao dizer que:


“Qualquer candidato que proponha a sua eleição como o pagamento de uma dívida social é, com toda a evidência, um charlatão do qual não se pode esperar nada de bom. Se a dívida existe e é social, não pode ser jamais resgatada mediante pagamento a um só indivíduo. O fato mesmo de que este se apresente como credor simbólico, herdeiro e resumo vivo de várias gerações de interesses lesados, já mostra que se trata de um vigarista, pois nem aceita pagamento simbólico nem tem como repassar o pagamento efetivo aos credores defuntos de cujo crédito se apropria indevidamente.” (Carvalho, 2017)

Repito o que já afirmei em muitas outras ocasiões: a chave para a renovação humana na Terra é a autonomia! O tempo em que, rebeldes, precisávamos aprender por provações e resgates dolorosos, já era! A nova humanidade, já no seio de nossas sociedades, se identifica pela diversidade, pela autonomia, pela auto-gestão segundo padrões autônomos e colaborativos. Pela compreensão de sermos partes de um sistema maior, veículos de expressão da harmonia deste sistema. Portanto, não sejamos despertos como Smith, fora de contexto, fora de um propósito maior!


Referências

  1. Carvalho, Olavo de. 2017. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro : Editora Record.

  2. Tolle, Eckhart. 2007. O despertar de uma nova consciência. [trad.] Henrique Monteiro. Rio de Janeiro : Sextante. 978-85-7542-313-4.

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