• Rodolfo de Oliveira

Ampliando as Fronteiras Da Ciência


“Químicos e físicos, geômetras e matemáticos, erguidos à condição de investigadores da verdade, são hoje, sem o desejarem, sacerdotes do Espírito, porque, como consequência de seus porfiados estudos, o materialismo e o ateísmo serão compelidos a desaparecer, por falta de matéria, a base que lhes assegurava as especulações negativistas.
Os laboratórios são templos em que a inteligência é concitada ao serviço de Deus, e, ainda mesmo quando a cerebração se perverte, transitoriamente subornada pela hegemonia política, geradora de guerras, o progresso da Ciência, como conquista divina, permanece na exaltação do bem, rumo a glorioso porvir.
O futuro pertence ao Espírito!” (Xavier, 1954)

Quem sou eu? O que estou fazendo aqui? De onde venho e para aonde vou? Por milhares de anos, o ser humano procura seu lugar e propósito no cosmos. Religiões diversas oferecem suas perspectivas; a ciência adiciona algumas respostas, e muitas outras perguntas. Neste texto procuro apresentar minha perspectiva pessoal sobre ciência, religião e espiritualidade, desenvolvendo tais conceitos e procurando estabelecer uma melhor compreensão de como eles se relacionam. Afinal, respostas às questões fundamentais sobre nossa natureza e propósito devem ser integrativas, impossibilitando seu alcance por perspectivas fragmentadas.


A palavra “ciência” deriva do latim, Scientia, que significa “conhecimento”. A ciência, portanto, pode ser entendida como a busca pelo conhecimento [1]. Obviamente, com o desenvolvimento natural do campo científico, definições mais elaboradas se estabeleceram, refletindo perspectivas e metodologias mais sofisticadas. Contemporaneamente, a ciência pode ser definida por: “Estudo sistemático, teórico e prático, da estrutura, processos e leis da natureza através de observação e experimentos práticos”.


Esta definição indica dois pilares fundamentais: teoria e prática. O aspecto teórico da ciência é a busca intelectual de princípios básicos que explicam como a natureza funciona. É a busca das relações de causa e efeito e das leis naturais que as governam, transformando o caos em ordem. Teorias, como elemento intrínseco da ciência de todos os tempos, fornecem modelos conceituais que permitem uma melhor compreensão de fenômenos reais. Permitem ao homem apreender informações pela observação, dedução, exercício da criatividade e até mesmo em estado “contemplativo”, ou meditativo. É claro que, para consolidarem-se enquanto conhecimento científico, as teorias ainda precisam ser verificadas experimentalmente, mas pouco progresso seria alcançado no campo científico se teorias não fossem formuladas e compartilhadas para verificação experimental entre vários cientistas (maior progresso se faz por uma harmoniosa atividade colaborativa).


Após a formulação de modelos teóricos temos, então, o segundo aspecto da ciência: o da verificação experimental, prática. A ciência experimental consiste no planejamento e execução de testes em condições controladas (para evitar a interferência de variáveis outras do que as que estão à prova) com o objetivo de coletar evidências objetivas que apoiem ou refutem uma teoria. Tais condições controladas devem então ser documentadas para que possam ser replicadas por outros pesquisadores, demonstrando assim a reprodutibilidade da relação de causa e efeito que se procura demonstrar.


Toda a atividade científica consiste, portanto, na constante interação entre teoria e prática, geração a geração, aperfeiçoando constante e colaborativamente o legado científico anterior. É assim que inúmeras mentes ao longo dos séculos nos ajudaram a chegar onde ninguém ou nenhuma geração humana sozinha poderia ir.


Outro aspecto da ciência a ser destacado é o fato de que depende de estudos sistemáticos. Todo conhecimento científico deve ser coeso e lógico. Novos postulados devem se basear em conhecimentos passados, opondo ou contradizendo-os apenas quando puder apontar seus equívocos - e isso acontece, uma vez que a ciência é uma criação humana, tão falível quanto todos nós somos! Daí porque todo cuidado é justificadamente devido.


“Todas as ciências têm, como ponto de partida, certas noções elementares que lhes são fornecidas pela experiência comum da humanidade. Não haveria aritmética se os homens não tivessem, à medida que seus desejos aumentaram, começado a contar e calcular, e se já não tivessem algumas ideias de números, unidades, frações etc. Também não haveria geometria se os homens também não tivessem concepções de círculos, quadrados, linha reta. O mesmo acontece com a moral. Pressupõe-se certas noções existentes entre todos os homens, pelo menos até certo ponto. Bem e mal, dever e obrigação, consciência, liberdade e responsabilidade, virtude e vício, mérito e demérito, sanção, punição e recompensa, são noções que o filósofo não inventou, mas pegou emprestado do senso comum, para devolvê-las novamente clarificadas e aprofundadas.” (Janet, 1884)

Portanto, agora que estabelecemos adequadamente um conceito de ciência, permita-me elaborar algumas indagações: Onde, segundo a definição acima, está implícito que a ciência deva ser materialista? Onde ficou estabelecido que deva se basear em fenômenos físicos? Afinal de contas, já foi provado que dimensões não-físicas não existem, que a matéria tal como a conhecemos é a única possibilidade natural no universo? Excluir a possibilidade de haver na natureza estados quânticos diferentes daquele a que denominamos “matéria” e explicar todos os fenômenos não-materiais como ilusão ou fraude simplesmente não pode constituir boa ciência ou mesmo bom raciocínio lógico – pode ser, talvez, o que comumente se denomina por ceticismo, mas está mais para dogmatismo científico!


“Fenômenos alheios às leis da ciência humana se dão por toda parte, revelando na causa que os produz a ação de uma vontade livre e inteligente. A razão diz que um efeito inteligente há de ter como causa uma força inteligente e os fatos hão provado que essa força é capaz de entrar em comunicação com os homens por meio de sinais materiais. Interrogada acerca da sua natureza, essa força declarou pertencer ao mundo dos seres espirituais que se despojaram do invólucro corporal do homem. Assim é que foi revelada a Doutrina dos Espíritos. As comunicações entre o mundo espírita e o mundo corpóreo estão na ordem natural das coisas e não constituem fato sobrenatural, tanto que de tais comunicações se acham vestígios entre todos os povos e em todas as épocas. Hoje se generalizaram. ” (Kardec, 1857)

Aliás, faremos uma breve digressão abordando interpretações alternativas para a ciência dos dias de hoje a fim de demonstrarmos os riscos incorridos ao tirarmos conclusões precipitadas assim como a ciência do físico e não-físico não precisam ser assim tão distantes uma da outra

Descrição Gráfica do Modelo de Relatividade Geral

Fonte: (Gerber, 2001)


Você pode estar familiarizado com a equação Einsteiniana E=mc^2, mas talvez não saiba que essa é apenas uma versão simplificada[2] de um modelo maior, expresso por:

Onde E = a energia do sistema; m = a massa do sistema; v = a velocidade do sistema e c = a velocidade da luz.

Note que a equação prevê a interconectividade e interconvertibilidade entre matéria e energia. Matéria, seria então uma forma de agregação energética de densidade tal que se torna palpável. Então, considerando um sistema hipotético qualquer constituído por matéria física – este livro por exemplo. Vemos que, de acordo com a equação acima, à medida que o aceleramos, aumentamos sua energia (cinética), mas energia infinita seria requerida para se transcender a velocidade da luz, o que aparentemente sugere a intransponibilidade desta. Isso pode também ser visualizado observando-se o primeiro quadrante do gráfico acima. Além disso, sempre que tivermos a velocidade do sistema acima da velocidade da luz, teremos resultados que incluem números imaginários (devido à raiz quadrada ser menor do que zero).

“Até então, a maioria dos físicos aceitam a aparente limitação de que não se pode acelerar a matéria além da velocidade da luz. Essa suposição está relacionada, em parte, ao fato de que quando inserimos números maiores que a velocidade da luz na Transformação Einstein-Lorentz [a equação completa mostrada acima], obtemos soluções contendo a raiz quadrada de -1, que é considerada um número imaginário. Como a maioria dos físicos não acredita em números imaginários, eles assumem que a velocidade da luz é a velocidade máxima na qual a matéria pode viajar.” (Gerber, 2001)

Mas será que números imaginários são somente concepções puramente intelectuais? Apesar de não haver provas concretas confirmando ou rejeitando sua existência, a teoria de hipernúmeros e extra-funções (do inglês, “hypernumbers and extrafunctions”), por exemplo, apresenta uma nova abordagem para a solução de problemas físicos e matemáticos envolvendo tais números. Alguns matemáticos entendem que os números imaginários simplesmente apresentam soluções que transcendem dimensões. Assim, considerando nosso problema de relatividade, quem sabe, resultados “imaginários” simplesmente transcendem as fronteiras da dimensão física?

“Certos matemáticos pioneiros, como Charles Muses, consideram a raiz quadrada de -1 como sendo de uma categoria de números referidos como "hipernnúmeros". Estes hipernúmeros, acredita ele, são necessários para o desenvolvimento de equações que descrevem matematicamente o comportamento de fenômenos ocorrendo em dimensões superiores. (...) embora à primeira vista pareça impossível imaginar números imaginários como a raiz quadrada de -1, Muses aponta que eles são necessários para encontrar soluções nas equações da teoria eletromagnética e quântica. ” (Gerber, 2001)

Interessante também é observarmos o que nos diz a física. A existência de partículas viajando a velocidades superluminais (acima da velocidade da luz) já foi proposta pelo físico Arnold Sommerfeld e nomeados por Gerald Feinberg como “taquions”. Sua existência nunca foi demonstrada, mas será que não temos aqui um bom candidato a configurar a “matéria astral” da qual muito já se falou em círculos espiritualistas?

“Os taquions têm as estranhas propriedades das quais quando perdem energia, ganham velocidade. Consequentemente, quando os taquions ganham energia, eles diminuem a velocidade. A velocidade mais lenta possível para os taquions é a velocidade da luz. (...). Foi proposto que os taquions poderiam ser produzidos a partir de colisões de partículas de alta energia e buscou-se identificá-los em raios cósmicos. Raios cósmicos atingem a atmosfera da Terra com alta energia (alguns deles com velocidade de quase 99,99% da velocidade da luz) fazendo várias colisões com moléculas da atmosfera. As partículas produzidas por essa colisão interagem com o ar, criando ainda mais partículas em um fenômeno conhecido como chuva de raios cósmicos. Em 1973, usando um grande número de detectores de partículas, Philip Crough e Roger Clay identificaram uma suposta partícula superluminal em um banho de ar, embora esse resultado nunca tenha sido reproduzido. ” (Weisstein)

Não se pode concluir nada, mas quero demonstrar como é perigoso assumirmos que sabemos mais do que realmente sabemos. Em ciência, como na vida, precisamos manter a mente aberta! Passemos, então, para uma análise final da segunda curva do gráfico, em seu quarto quadrante.


Observe como esta segunda curva espelha a primeira, a partir do eixo vertical, que denota a velocidade da luz. Todas as partículas neste quarto quadrante têm massa negativa e se movem em velocidades supraluminais (teriam sido “eterizadas” em um tipo de matéria astral?). Quanto mais próxima sua velocidade chegar à velocidade da luz, menor será sua energia (estariam tais partículas se “densificando”?); que é, em todo caso, menor do que qualquer cenário possível descrito pelo primeiro quadrante do gráfico.


Ora, como tudo indica, é racionalmente especulável tomarmos a velocidade da luz como uma possível fronteira entre dimensões físicas e não-físicas, ou melhor, entre as dimensões física (espaço-tempo positivo) e astral (espaço-tempo negativo). Nada fica provado, mas podemos sim elaborar teorias e devemos também testá-las!


William Tiller, Ph.D., professor emérito de ciência e engenharia de materiais na Universidade de Stanford e ex-presidente do Departamento de Ciência dos Materiais desta instituição observa que:

“Considerando que a matéria em espaço-tempo positivo está associada às forças elétricas e da radiação eletromagnética (EM), a matéria em espaço-tempo negativo está associada principalmente ao magnetismo e uma força descrita como sendo magneto-elétrica (ME).” (Gerber, 2001)

Assim, e considerando que se uma corrente elétrica gera um campo magnético, da mesma forma, uma corrente magnética deva gerar um campo elétrico, é normal que as energias, primariamente de natureza não-física, fluindo pelos chacras humanos gerem campos elétricos e energia eletrostática passíveis de constatação instrumental. Temos, portanto, caminhos para conduzirmos pesquisas de âmbito multidimensional!


Portanto, como observado anteriormente, os mundos físico e não-físico não estão necessariamente tão distantes um do outro. E, se assim é para a física, a matemática, a medicina (considere técnicas de “medicina vibracional” ou “medicina alternativa”), então por que não seria assim para a mente humana? Fenômenos como a psicocinese, telepatia, retro e precognição, clarividência etc. podem e devem ser estudados como ciência. Exigem, entretanto, métodos de estudo alternativos, adaptados à natureza do fenômeno em questão, como bem ponderou Allan Kardec ao desenvolver seu método de estudo dos fenômenos espíritas.

“Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental. Fatos novos se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis conhecidas; ele os observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz-lhes as consequências e busca as aplicações úteis. Não estabeleceu nenhuma teoria preconcebida; (...) concluiu pela existência dos Espíritos, quando essa existência ressaltou evidente da observação dos fatos, procedendo de igual maneira quanto aos outros princípios. Não foram os fatos que vieram a posteriori confirmar a teoria: a teoria é que veio subsequentemente explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental; até então, acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas. ” (Kardec, 1868)

“Até ao presente, o estudo do princípio espiritual, compreendido na Metafísica, foi puramente especulativo e teórico. No Espiritismo, é inteiramente experimental. Com o auxílio da faculdade mediúnica, mais desenvolvida presentemente e, sobretudo, generalizada e mais bem estudada, o homem se achou de posse de um novo instrumento de observação. A mediunidade foi, para o mundo espiritual, o que o telescópio foi para o mundo astral e o microscópio para o dos infinitamente pequenos. Permitiu se explorassem, estudassem, por assim dizer, visualmente, as relações daquele mundo com o mundo corpóreo; que, no homem vivo, se destacasse do ser material o ser inteligente e que se observassem os dois a atuar separadamente.” (Kardec, 1868)

Ora, se a matéria é composta de átomos, que, por sua vez, são compostos por uma grande eletrosfera e um núcleo, temos que a maior parte da massa em cada átomo está em seu núcleo, que ocupa uma pequena porção do volume total do átomo. Assim, tudo com o que interagimos em todo o curso de nossas vidas, incluindo nossos próprios corpos físicos, é composto de átomos que são em grande parte “vazios”. Mas podemos ainda ir mais fundo... O que há dentro do núcleo? Prótons e nêutrons que podem ser subdivididos em partículas ainda menores, conhecidas como quarks. E do que é feito um quark? Não sabemos bem, mas uma das teorias mais proeminentes propõe que sejam compostos de “cordas energéticas” vibrando em padrões bem distintos. Cordas que, naturalmente, devem ser regidas por algo além delas próprias, certo? Continuamos neste caminho e invariavelmente chegaremos à consciência e dela à uma ordem ainda maior.


É, portanto, natural e necessário que ultrapassemos paradigmas já há muito ultrapassados que separam corpo e alma, entendendo a ambos de maneira bastante superficial. Tal concepção pode ter feito sentido à Descartes no século XVII, mas desde então vêm se provando insustentável, segurando-se à dogmas, títulos e medo, muito medo. Poderíamos discorrer sobre o assunto por ainda muitas outras páginas, mas já o fizemos o bastante para confirmarmos o que afirmou Chico Xavier ainda em 1954:


“Químicos e físicos, geômetras e matemáticos, erguidos à condição de investigadores da verdade, são hoje, sem o desejarem, sacerdotes do Espírito, porque, como consequência de seus porfiados estudos, o materialismo e o ateísmo serão compelidos a desaparecer, por falta de matéria (...)
O futuro pertence ao Espírito!” (Xavier, 1954)


Notas de Rodapé

[1] De forma similar, “filosofia” advém do grego philosophia, que pode ser traduzido literalmente como “amor pela sabedoria”. Veremos, então, como é o objetivo deste texto, que precisamos aproximar ciência e filosofia; afinal de contas, como ser sábio sem conhecimento ou julgar-se possuidor de conhecimentos, quando incapaz de os exercer sabiamente? Nosso destino passa, invariavelmente, pela integração de todas as potencialidades humanas! [2] Essa simplificação, em termos gerais, elimina certas propriedades do sistema, como a distorção do tempo e mudanças de comprimento, largura e massa em diferentes velocidades (e sim, todos esses parâmetros mudam com mudanças de velocidade. Por exemplo, os satélites orbitam nosso planeta a cerca de 15.000 Km/h requerendo que os dispositivos de GPS ajustem o tempo que recebem desses satélites em cerca de 8 microssegundos por dia). A simplificação faz sentido em alguns sistemas, mas neste texto procuraremos avaliar a equação completa.



Bibliografia

  • Janet, Paul. 1884. Elements of Morals. 1884. Tradução livre feita pelo autor do inglês para o português.

  • Kardec, Allan. 1857. O Livro dos Espíritos.

  • Gerber, Richard. 2001. Vibrational Medicine: The #1 Handbook of Subtle-Energy Therapies. s.l. : Inner Traditions/Bear & Company, 2001.

  • Weisstein, Eric W. [Online] [Citado em: 2 de 12 de 2018.] http://scienceworld.wolfram.com/physics/Tachyon.html.

  • Kardec, Allan. 1968. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos.

  • Xavier, Francisco Cândido. 1954. Nos Domínios da Mediunidade.

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